Olho para ela.
Olho
para ela e sinto o coração inchar. Olho para ela sempre que posso. Olho para
ela e observo-a, enquanto abraça a mãe, a tia, os amigos, a vizinha e a senhora
que passa na rua. São muitos abraços. Ela é mesmo assim. Simplesmente olho para
ela. Tem os cachos pretos soltos que dançam, livremente, ao sabor do vento. Que
bom é vê-la de cabelo pelos ombros, de sorriso largo na cara e de olhos
brilhantes como duas estrelas que mantêm a sua postura, sem cessar, mesmo
durante as maiores tempestades.
Não
perco uma oportunidade de olhar para ela. Quando o faço, sei, com toda a
certeza, que fui abençoada. Não digo isto no sentido mais religioso da coisa,
embora acredite que há por aqui mão de Deus. Digo isto porque tive sorte, mais
sorte do que a maioria.
Se
não fosse voluntária, o que seria?
Uma
coisa sei: Seria, de certo, menos feliz, menos capaz, menos humana. Falo por
mim. Não me levem a mal! Acredito, realmente, que se pode ser a melhor pessoa do
mundo e não se ser voluntário. Mas, na minha vida, isso simplesmente não faria
sentido.
Sou
voluntária há quase 5 anos, numa Associação, que eu própria criei. Estou
habituada a lidar de perto com as “nossas” crianças, afectadas por doenças
oncológicas. Estou habituada a ouvir a famosa frase “Queria tanto fazer voluntariado,
mas não sei como”. E qual seria o meu conselho? Mexe-te! Procura! Descobre! E
se não encontrares? Procura mais, faz planos, organiza, cria.
Poderiam
escrever-se muitos artigos, muitas crónicas ou até cento e um livros sobre o
voluntariado. Digo-vos uma coisa: Nada o descreveria de forma justa. O
voluntariado não é algo fácil. É necessário transbordarmos de dedicação, de
disposição, de amor. É necessário confiarmos nas nossas capacidades e termos
sempre presente o nosso objectivo interior, para assim passá-lo a quem tanto
queremos ajudar.
O
meu objectivo é fazê-la sorrir. A ela e a tantas outras crianças que ajudamos,
na nossa Associação.
Se é
complicado? Muito. Se dá trabalho? Quanto baste. Se vale a pena? Sempre - vale
sempre a pena.
Foi despercebida que percebi a essência de
ajudar – Era uma tarde de Agosto quando passeávamos com ela pelo Parque da Cidade.
Sorria com cada passo que dava. Às tantas, olhou para nós e disse “Não sei
porquê, mas hoje estou ainda mais feliz”. Saber que fazemos parte da felicidade
de alguém é algo inigualável.
É
esta frase que digo a todos os que um dia viram passar pela sua cabeça a ideia
de ser voluntário. Quando se torna um pouco mais árduo, quando requer um pouco
mais de nós, olho para ela. Ela salta e pula e dança e ri e eu?
Eu
olho para ela.

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