quarta-feira, 23 de julho de 2014


Olho para ela. 


Olho para ela e sinto o coração inchar. Olho para ela sempre que posso. Olho para ela e observo-a, enquanto abraça a mãe, a tia, os amigos, a vizinha e a senhora que passa na rua. São muitos abraços. Ela é mesmo assim. Simplesmente olho para ela. Tem os cachos pretos soltos que dançam, livremente, ao sabor do vento. Que bom é vê-la de cabelo pelos ombros, de sorriso largo na cara e de olhos brilhantes como duas estrelas que mantêm a sua postura, sem cessar, mesmo durante as maiores tempestades.

Não perco uma oportunidade de olhar para ela. Quando o faço, sei, com toda a certeza, que fui abençoada. Não digo isto no sentido mais religioso da coisa, embora acredite que há por aqui mão de Deus. Digo isto porque tive sorte, mais sorte do que a maioria.

Se não fosse voluntária, o que seria?

Uma coisa sei: Seria, de certo, menos feliz, menos capaz, menos humana. Falo por mim. Não me levem a mal! Acredito, realmente, que se pode ser a melhor pessoa do mundo e não se ser voluntário. Mas, na minha vida, isso simplesmente não faria sentido.

Sou voluntária há quase 5 anos, numa Associação, que eu própria criei. Estou habituada a lidar de perto com as “nossas” crianças, afectadas por doenças oncológicas. Estou habituada a ouvir a famosa frase “Queria tanto fazer voluntariado, mas não sei como”. E qual seria o meu conselho? Mexe-te! Procura! Descobre! E se não encontrares? Procura mais, faz planos, organiza, cria.

Poderiam escrever-se muitos artigos, muitas crónicas ou até cento e um livros sobre o voluntariado. Digo-vos uma coisa: Nada o descreveria de forma justa. O voluntariado não é algo fácil. É necessário transbordarmos de dedicação, de disposição, de amor. É necessário confiarmos nas nossas capacidades e termos sempre presente o nosso objectivo interior, para assim passá-lo a quem tanto queremos ajudar.

O meu objectivo é fazê-la sorrir. A ela e a tantas outras crianças que ajudamos, na nossa Associação.

Se é complicado? Muito. Se dá trabalho? Quanto baste. Se vale a pena? Sempre - vale sempre a pena.

 Foi despercebida que percebi a essência de ajudar – Era uma tarde de Agosto quando passeávamos com ela pelo Parque da Cidade. Sorria com cada passo que dava. Às tantas, olhou para nós e disse “Não sei porquê, mas hoje estou ainda mais feliz”. Saber que fazemos parte da felicidade de alguém é algo inigualável.

É esta frase que digo a todos os que um dia viram passar pela sua cabeça a ideia de ser voluntário. Quando se torna um pouco mais árduo, quando requer um pouco mais de nós, olho para ela. Ela salta e pula e dança e ri e eu?

Eu olho para ela.

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